As Regras do Jogo - Primeira Parte
As
regras do jogo são simples.
A primeira regra é: isso não é só um
jogo. Embora funcione como um jogo e tudo seja devidamente controlado, você
está dentro da história. É uma experiência de imersão como nenhuma outra.
A segunda regra é: você não pode entrar
sozinho.
* * *
Todo mundo já ouviu falar de um desses
lugares. Começou há muitos anos, no começo do século XXI. Primeiro eram as
experiências de “realidade virtual”, que fizeram um pouco de sucesso mas logo
desapareceram. Depois, os labirintos de terror foram uma febre. Existiam alguns
bem simples, mas que metiam medo; os famosos, em parques de diversões enormes.
Toda cidade tinha um desses labirintos na época do Halloween. Mas então, há
alguns anos, uma equipe de entretenimento resolveu levar a coisa um pouco longe
demais. Misturar a experiência real desses brinquedos com as possibilidades de
uma realidade virtual. Em outras palavras, um modo de se “reiniciar” uma fase
que fosse... real.
No começo, parecia muito complicado.
Mas as pessoas, acostumadas com videogames e tudo mais, logo se acostumaram.
Afinal, era exatamente como um jogo. Existia um roteiro e, para se passar de
fase, você deveria fazer exatamente o que o roteiro exigia. Se algo não desse
certo, você simplesmente apertaria o botão de reiniciar. Era o mais perto
possível de um videogame real.
A empresa responsável pelo jogo – Real Fear, caso você esteja se
perguntando o nome – nunca revelou exatamente como funciona o mecanismo de
reiniciar, é claro. Ela mantém o monopólio, e hoje existem mais labirintos da Real Fear do que lojas do McDonald’s.
Cada um tem um nome e um tema, mas cada jogo é completamente diferente do outro
– pelo menos é o que eles prometem.
“E se alguém morrer no jogo?”, as
pessoas perguntaram no início. Sem problemas: o botão de reiniciar faz com que tudo volte a ser como era quando você
passou pelo último save point...
exceto, é claro, que você mantém sua memória, para não cometer os mesmos erros.
“Então as pessoas morrem e voltam? Isso é viagem no tempo?” Não, não é. Essa
foi a única resposta da empresa. Eles não explicaram mais do que isso. “As
pessoas voltam dos mortos, então?” Também não. A Real Fear nunca explicou o que acontece, mas o importante é:
funciona. E os jogos são incríveis.
Pelo menos é o que diziam. Eu nunca
havia participado de nenhum por um motivo muito simples: eu morro de medo.
Sempre morri. Não só medo do que poderia acontecer caso o botão não funcionasse
– apenas cinco casos haviam acontecido, e para uma companhia que já tinha feito
mais de cem milhões de jogos, a estatística era praticamente nula –, mas medo
do que aconteceria lá dentro. Eu nem mesmo assisto a filmes de terror. E é por
isso que eu jurei que nunca participaria de um desses jogos.
Mas, é claro, uma garota muda tudo.
Olívia me chamou para participar de um
jogo com ela como comemoração do seu aniversário. Eu estava hesitante até que
ela me mostrou onde seria o jogo.
¾ É no Simple
Dread, no shopping. Dizem que é super legal.
¾ Simple Dread? ¾
perguntei. ¾ Os jogos lá... são de
pares, não são?
¾
São ¾ ela sorriu ¾
eu quero que você vá comigo. Eu já fui em muitos jogos, mas dizem que lá é o
melhor, justamente porque tem menos gente. Vamos? Por favor?
E então eu cometi o erro de olhar em
seus olhos.
¾
Claro ¾ falei, sem perceber as palavras saindo da
minha boca ¾ Parece legal.
Esse
sorriso vai ser o meu fim, pensei.
Mas, é claro, eu achei que estava
falando metaforicamente. Nunca esperei que talvez fosse ser verdade.
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